Capítulo 1 — “Entre Entregas e Aromas”
“Algumas histórias começam com um toque. Outras, com um cheiro. Mas a dele começou com um pacote e o aroma doce que ele nunca mais esqueceria.”
A sexta-feira arrastava o final do dia com uma garoa tímida, e Vinícius já estava contando os minutos pra fechar a mochila e ir embora. Só mais uma entrega — dessas que a Fréya deixava marcada como "urgente e discreta". Rua sem saída, bairro nobre, portão de ferro com interfone digital.
— Alô? Entrega da Fréya.
— Pode subir… tá destrancado.
A voz era feminina, suave, com um toque aveludado. Mas foi só abrir a porta que o impacto veio: Duda.
Morena, curvas marcadas sob uma camisola curta de seda preta. Cabelo bagunçado com perfeição, olhos escuros como noite de verão.
— Que bom que chegou rápido... — disse Duda, pegando o pacote.
Vinícius, meio sem graça, apenas assentiu. Ia virar as costas, mas Duda segurou o braço dele com delicadeza.
— Você sabe usar esse aqui? — perguntou, tirando do pacote um óleo de massagem com aroma de jasmim e baunilha.
— Não... eu só entrego.
— Uma pena.
O ambiente tinha cheiro de vela recém-apagada, e o som de um jazz suave preenchia o ar.
— Quer um café? Ou... uma massagem?
Vinícius riu, sem saber se era brincadeira ou convite real.
— Melhor eu ir. Ainda tenho duas entregas.
— Vai sim... mas volta amanhã. Eu vou precisar de mais.
Sábado, meio da tarde. Outro pedido. Mesmo endereço. Mesmo nome.
Ele tocou a campainha. Dessa vez, Duda abriu com uma blusa larga caída num ombro e um copo de vinho na mão.
— Você voltou...
— Você pediu outro óleo.
— Ou pedi você?
Duda deixou ele entrar. A casa estava aquecida, um cheiro adocicado tomava conta. No centro da sala, um tatame grande, uma toalha estendida, e ao lado... o óleo.
— Senta. Só um pouco.
— Tô de tênis...
— Tira.
Vinícius tirou. Sentou. E Duda, como quem não pedisse permissão pra nada, se posicionou atrás dele e começou a massagear seus ombros.
— Você tá todo tenso… alguém precisa cuidar disso.
As mãos dela deslizavam com precisão. Não era provocação barata. Era arte. Era controle.
Quando ele se virou pra encará-la, Duda já estava mais próxima, com o cabelo caindo no rosto, os lábios entreabertos.
O beijo foi inevitável.
Dali em diante, o tempo virou borrão. Tarde, noite, madrugada. Corpo sobre corpo, o som do óleo sendo espalhado, gemidos contidos, respiração quente na nuca, mãos explorando territórios recém-descobertos.
Domingo, eles acordaram entrelaçados no sofá. Duda riu, bagunçou o cabelo dele e perguntou:
— Vai fugir amanhã?
— Talvez.
— Talvez eu suma antes, disse ela.
Eles riram. Fizeram café juntos. Mais toques. Mais banho. Mais desejo.
Segunda-feira, 10h da manhã. Vinícius resolveu voltar. Só pra ver. Só pra entender.
A casa estava vazia. Silêncio. Portão trancado. Nenhuma movimentação.
Perguntou pro vizinho:
— A moça que mora aí, sumiu?
— Ninguém mora aí, rapaz. Tá pra vender faz meses.
Vinícius sorriu sem entender. Olhou pro céu. Cheirou o próprio casaco. Ainda tinha perfume de jasmim.
Tocou o pescoço. Sentiu a pele marcada.
E ficou ali parado, tentando entender:
Foi real? Ou um desejo materializado por um simples frasco de óleo?
Não… ele sabia que foi real. Impossível ter imaginado tudo aquilo — nem no melhor dos sonhos conseguiria criar tamanha intensidade, cheiro, gosto, toque. Duda existiu. Viveu com ele um final de semana fora do tempo.
Mas agora, restava só o silêncio… e a esperança.
A esperança de, quem sabe, um dia — em outro endereço, numa nova entrega — aquela mulher o chamasse de novo para mais um fim de semana quente.
Algumas semanas se passaram.
Era um sábado nublado quando o nome dela apareceu de novo no sistema da Fréya. Mesmo endereço. Mesmo produto. Mesmo aroma inconfundível. Vinícius prendeu a respiração por um instante. Era impossível ser coincidência.
Foi até lá. Ao chegar, o mesmo portão, a mesma campainha.
Duda abriu a porta. Esbelta, provocante, com um sorriso que desmontava qualquer defesa.
— Achou que eu ia sumir mesmo? — disse Duda, encostada no batente.
Vinícius ficou parado, olhando como se estivesse diante de uma miragem.
— O vizinho... disse que essa casa tá à venda. Que ninguém mora aqui.
Duda riu.
— É da minha amiga. Ela se separou, foi morar em outro estado. Deixou a chave comigo pra eu vir de vez em quando, abrir as janelas, ver se tá tudo em ordem... e pra alguns encontros românticos também. — Duda fez uma pausa, olhando nos olhos dele. — Tenho namorado, mas ele vive viajando. Não gosta de massagem. Então... venho aqui me aventurar.
Tudo fez sentido. Mas o que mais falava naquele momento era o sorriso de Vinícius. Um sorriso que dizia: "obrigado por ter voltado."
Eles passaram o final de semana juntos. Mais intenso. Mais íntimo. Já não havia estranhamento. Havia entrega. Vontade. Sintonia.
No domingo à noite, entre beijos e promessas silenciosas, combinaram um código:
— Sempre que eu estiver aqui, vou pedir o mesmo óleo de massagem. Vai ser nossa senha. Nosso sinal.
Vinícius segurou a mão dela com firmeza.
— Combinado. Sempre que eu ver teu nome e sentir esse cheiro... eu venho.
Duda sorriu e fechou a porta lentamente, como quem guarda um segredo entre os lençóis da casa.
Ele desceu os degraus com o corpo relaxado, mas o coração acelerado. Agora ele sabia. Duda existia. E o jogo estava só começando.
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Obs.: Nomes fictícios
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